sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Mútuo."



Chegar na hora certa, não do relógio, da vida.
Espero que me prenda livre,
que fique por querer, não por ter.
Que o carinho seja mútuo
mas que não seja cobrado.
Que o passo seja firme
mesmo sobre navalhas.

"Se é pra vir, que venha logo. Se é pra irmos, não me apresse, ajustar o tempo pode gerar um furação."

sábado, 10 de abril de 2010

"Notas; 1"


Por exemplo: queimar uma bandeira. É assassinato; Não derrama sangue, não tortura mas mata, fere. Por exemplo: a foto da morte. Um corpo deitado no caixão não é a foto da morte é a do enterro; A foto do momento exato do ocorrido não é a foto da morte é a prova crime. A foto da morte ninguém tem. É a foto do vazio; Da cama vazia, do guarda roupa intacto, do lugar vazio na mesa de jantar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Da porta pra dentro."



Sentiu dormiu
Deixou porta, cama, TV
As contas do final do mês
E sua volta deixou um talvez
Dúvida, dívida
Acordou e o velho monstro ainda estava ali
O rojão esperava lá, tão longe
Com o sol insaciável de manhã
Pra matar seu nome
É preciso muito mais que dor
É preciso ser mais que infame
O seu trunfo é ser sonhador
E o que o assusta é sonhar tão grande

Se atrasou pra mais um dia que não lhe convém
Para um bom café da manhã não tem tempo
Pra se sentir vivo outra vez
Através da janela sente o vento lhe convencer
Mesmo que machuque é melhor deixar bater
A sua escolha foge do tom
Das nuvens cinzas que a chuva traz
E a tempestade é por dentro e não vil
É o que acanha esse bom rapaz
Largou livro, papéis, jornais
Trouxe só o que não se pode separar
Deixar si mesmo
Deixou porta, cama, TV
Sentiu dormiu

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

"Coisas Soltas de uma Vida Só."


Um rádio
Um porta-retrato
Uma carta que vem lá do Sul
Com um beijo marcado
Alguma coisa que engrandeça a vida
Tudo o que te tira o sono
Que te causa ferida

Um riso frouxo
Um tiro no alvo
Uma reza que preze por tudo que pode ser salvo
O Amanhã é sempre um novo dia
E a paixão que acaba hoje
Amanhã já não valia

Nenhum vento tem a audácia de não levar a duna
Nenhum tiro tem razão
Mesmo na alma mais impura
O movimento contrário
De um relógio quebrado
Até pra disciplina é preciso loucura

Um riso frouxo
Um tiro no Alvo
Uma reza que preze por tudo que pode ser salvo
O Amanhã é sempre um novo dia
E a paixão que acaba hoje
Amanhã já não valia

E é a cabeça que confunde os fatos
E aquele que julga só ouviu relatos.
Foi o rato que roeu a roupa
Ou foi a vida do Rei
Que passou tão solta?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Tudo que vai."


Hoje vou fugir das cartas, dos plugins que tiram chiados e das edições. Tudo o que eu disser aqui pode ser pura mentira.
Hoje uns amigos vieram aqui depois do ensaio, tomamos umas cervejas e conversamos um pouco. Um deles entrou no assunto de balões, não me lembro o porque, e começou a descrever o trabalho enorme que era pra fazer e as aventuras para resgatar os mesmos. Logo achei a maior idiotice soltar balões, e ele descrevia aquilo com a maior felicidade, dois minutos de atenção para a felicidade dele e pude ver um outro lado. Eu sou um egoísta de primeira, acho que todo o meu trabalho tem que ser para o meu enriquecimento e de nada me vale tanto esforço se em seguida isso irá pra longe e eu ainda terei de gastar mais energia para trazê-lo de volta. Os balões são como os filhos, são feitos para o mundo, de que vale um balão no chão sem que esteja prestes a cortar os sacos de areia?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Carta pra Vilma.



Catinho do Sudeste, 26 de março de 1997

É, Vilma, eu estive mal por esses dias e ainda estou confuso, não sei se foi a pneumunia ou se foi a Júlia, que me deixou . Tá, eu sei que você acha que eu não presto e que sou um canalha, mas eu nunca a traí, eu juro. E agora ela foi embora sem aviso prévio e ainda levou meu melhor travesseiro, achei isso a maior das sacanagens, já perdi as contas de quantas vezes babei nele, de quantas vezes a minha mão se embolou entre ele e os cabelos dela.

Ah Vilma, se a Júlia soubesse que foi naquele travesseiro que planejei o Toninho ou a Olivia, e até a nossa casinha lá em cantinho do sul "uai", ela ficava tão fofa imitando os caipiras. Diz pra mim que ela tá aí, diz! Passei o dia todo pensando em aonde eu iria se fosse ela e nada, nada! Ei, se eu não consigo imaginar aonde ela iria, será que eu a conhecia mesmo? Agora já não sei mais, nesses dois anos acho que nunca perguntei quais os lugares que a traziam mais paz, ou será que foi ela que nunca me disse? E sabe qual é o pior nesta história toda? É que eu não consigo dormir e não é por causa dela é porque eu não consigo dormir com travesseiros baixos e ela sabia disso, desgraçada. Agora estou com raiva dela e saudade do travesseiro.

Vilma, se ela estiver por aí, avisa que o Nogueirinha tá com saudade e um puta torcicolo, vai?
Agora tenho de ir, farei uma visita ao médico, estão dizendo que esse negócio de pneumunia é sério.

Um beijo, Vilma.

Seu Genro,

Nogueira.

sábado, 12 de dezembro de 2009

"Sobre fotografia"


Quero pra mim o presente,
guardá-lo pro caso de qualquer fuga de minha memória.
Catalogá-lo em sequência, tomar posse de cada expressão, tornar os segundos eternos mesmo que sejam feitos de sentimentos tão efémeros.

Quero, como um caçador, acertar o momento, acertar o passo, sem quebrar o galho e espantar a caça, me sentir camuflado, ser estranho mas fazer parte. Quero a melhor luz, o melhor foco, a melhor face da dor, não quero ser tão imparcial assim, quero tudo do meu ponto de vista.